O usuário do futuro

Belda: "usuário do transporte no futuro será mais moderno e independente"
Belda: “usuário do transporte no futuro será mais moderno e independente”

Por Rogério Belda* – O futuro é sempre visto com os olhares do presente e a maior parte das pessoas acha que não será muito diferente do que é hoje. Os demais, quando acham que não será igual, projetam-no como resultado de suas fantasias e desejos. Por isso é comum dizer-se que todas as projeções são falhas porque é difícil antecipar o novo que o futuro trará.

Entretanto, algumas tendências que apresentam uma evolução lenta permitem antever determinados aspectos da organização da sociedade. Estes aspectos combinados com a identificação de alternativas de mudanças indicam o esboço de quadros coerentes de situações alternativas possíveis. Estes quadros, ainda que imprecisos, são chamados de cenários. Como ferramenta de planejamento, cenário corresponde à representação do conjunto de variáveis sobre as quais não se tem controle.

Para efeito da análise de como será o futuro usuário de transporte no Brasil, imaginemos três cenários: um cenário onde prevaleça a preocupação social, com uma população com renda mais equilibrada, vivendo em cidades mais condensadas, como ocorre na Europa. Outro cenário, onde a orientação pelo mercado predomina sobre a ética, onde a renda da população é crescente e concentrada e as cidades são mais espalhadas, bem ao estilo norte-americano. No terceiro cenário a renda é estagnada e as práticas sociais se caracterizam pela freqüência de improvisadas estratégias de sobrevivência. Haverá uma utilização intensa de motocicletas e a maior parte das viagens urbanas será atendida por operadores autônomos.

Em qualquer dos três cenários, pode-se prever que o congestionamento do trânsito será maior, que os tempos de viagem serão maiores. Nos cenários “padrão Europa e América”, os governos não terão como se furtar de subsidiar a operação dos transportes coletivos exigindo em contrapartida melhor organização das empresas públicas ou privadas que prestam estes serviços. No terceiro cenário a subvenção é realizada através de isenções na compra de equipamentos e insumos. Entretanto, estas condições serão diversas em cada cenário. No cenário “padrão América”, a população usuária de transporte coletivo será predominantemente de adultos jovens da classe C conforme a classificação das pesquisas de mercado. No cenário “padrão Europa”, a população usuária será mais diversificada quanto à idade, gênero e renda. No cenário “3º mundo” os usuários dos meios improvisados de transporte serão as camadas mais pobres da população. Feita a ressalva desta possibilidade de variantes, podemos especular, a partir de tendências já percebidas, como será o usuário do futuro.

A idéia que durou por décadas de que o usuário é cativo aos tipos de transporte esboroou-se nestes últimos anos. Não existe mais a constância de uso garantido a nenhum modo de transporte. As pessoas usam o transporte que melhor lhes atenda ou que melhor lhes apraz em cada momento, podendo até fazer o mesmo trajeto por modos diferentes em diferentes momentos.

Não é apenas a aceleração dos ritmos cotidianos com repercussão sobre as formas de consumo que reforçam esta tendência. As cidades modernas são “cidades terciárias” com predominância de atividades de serviços. As viagens originadas pelas atividades de serviços são muito variadas seja no espaço, seja no tempo. E nada leva a supor que não venham a ser mais inconstantes no futuro. A especialização levará a destinos ainda mais diversificados, tendência que será acentuada pela redução muito provável da jornada de trabalho. Aumentará a demanda nos fins de semana como conseqüência de atividades novas ou antigas realizadas em novos horários.

As transformações que ocorrem na esfera econômica terão, através da organização do trabalho, acentuada influência no padrão urbano das viagens cotidianas. O trabalho é a base de qualquer organização social, é fonte de renda das famílias e assegura um reconhecimento social ao proporcionar às pessoas ativas um status profissional. A participação da mulher no mercado de trabalho, por exemplo, cresce rapidamente e deverá alcançar muito em breve a participação que seria natural, a de ocupar a metade dos empregos. Esta nova presença marcará profundamente os transportes por ser um grupo com necessidades específicas e com um padrão de deslocamento diferenciado da população masculina.

Além da demanda feminina ser maior, o usuário do futuro será também mais adulto pelo estreitamento que está ocorrendo na base da pirâmide de idade da população urbana. Também as mudanças demográficas têm uma relação estreita com o padrão de viagens da população. Dentro de uma década haverá proporcionalmente mais idosos e menos jovens do que hoje. A redução da fecundidade e o ingresso tardio no mercado de trabalho vai implicar em famílias menores e, em diversos casos, em domicílios com uma só pessoa, contrastando com…[MAIS]

Pais e filhos: quem educa quem para o trânsito?

Especialista questiona de quem é a responsabilidade no trânsito
Especialista questiona de quem é a responsabilidade no trânsito

Por Márcia Pontes* – Pais e filhos: quem educa quem para o trânsito? Do ponto de vista técnico, uma somatória de fatores, haja vista que um acidente raramente tem uma causa isolada. De modo clássico, os acidentes são causados por imprudência, imperícia ou negligência, que não são exclusivas de quem está atrás do volante como se costuma pensar. Essas são as causas ligadas ao comportamento do condutor.

Temos ainda as causas externas, ambientais e políticas ligadas às questões de engenharia, de responsabilidade do poder público também para com as questões de educação para o trânsito. Aliás, esta parece ser outra grande falácia nos discursos mais inflamados porque ao mesmo tempo em que a sociedade clama desesperadamente por educação para o trânsito na escola como disciplina obrigatória, não acredita em seus efeitos para orientar e salvar as vidas adultas. É como se só a criança fosse capaz de aprender, os adultos não.

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E assim, cidadãos, governos e sociedade vão alimentando o discurso de que só o que poderá salvar a humanidade do genocídio em vias públicas é educar as novas gerações. Os bem crescidinhos, os “macacos velhos” que continuem morrendo porque não têm mais jeito. Há quem diga que esses não aprendem mais nada que preste, pelo menos, em relação à segurança no trânsito.

Só que desde que o mundo é mundo são os adultos, os crescidinhos, os macacos velhos que educam as crianças e exigir que este papel se inverta é jogar sobre os ombros das crianças uma responsabilidade para a qual elas não estão preparadas. É um fardo pesado demais para seres em formação que precisam de adultos educados, equilibrados e responsáveis para ensiná-las e educá-las para o trânsito e para a vida.

Cada um de nós tem em si muito de nossos pais e dos adultos que nos educaram, e nos identificamos o tempo todo com isso. Porque toda pessoa precisa antes aprender para ensinar. Falamos porque conseguimos ouvir e assim treinamos os nossos ouvidos para a aprendizagem da fala. Respeitamos ou desrespeitamos na sociedade as regras que aprendemos desde cedo na família com quem nos educa ou (des)educa.

Muito do que aprendemos foi por imitação, vendo nossos pais fazendo a coisa certa, e nos orgulhamos disto quando reproduzimos certos comportamentos, atitudes e até defendendo o modo de pensar mais conservador que aprendemos com eles. Só que quando se fala de trânsito, porque cabe às crianças a tarefa de educar os adultos?

Será que um pai que coloca o filho adolescente ou ainda criança atrás do volante de um carro ou moto e começa a ensinar a dirigir antes do tempo estaria passando a ele a seguinte mensagem: “Filho, as leis existem para serem respeitadas, mas respeite só aquelas que quiser”?

A sociedade precisa diferenciar entre o momento ingênuo em que as crianças chegam em casa entusiasmadas contando que aprenderam na escola a atravessar na faixa com a mão estendida, ou até mesmo entre quando mostram o formulário de multa moral e avisam: “pai, se você pisar na bola eu vou te multar”, do momento de educar.  Pois, desde que o mundo é mundo sempre foi e será o adulto que educará a criança.

Os pequenos podem até ajudar a tentar corrigir atitudes insensatas e arriscadas dos adultos no trânsito, mas, definitivamente, não é delas a obrigação ou tarefa de educar os adultos. Isto, na verdade, está muito…[MAIS]

Para especialista, fraude no Detran-SP expõe fragilidade no controle de CNHs

Para evitar fraudes, Detrans precisam fiscalizar mais CFCs, segundo especialista
Para evitar fraudes, Detrans precisam fiscalizar mais CFCs, segundo especialista

Nem mesmo os avanços na tecnologia dos Detrans para coibir fraudes nos processos de formação de condutores nas autoescolas, como leitores biométricos e monitoramento das aulas por câmeras, têm impedido que motoristas continuem comprando a habilitação. O esquema recentemente descoberto em São Paulo – que levou a autarquia a cancelar 4,9 mil Carteiras Nacionais de Habilitação (CNHs) adquiridas por até R$ 6 mil por motoristas que não cumpriram as etapas dos cursos teóricos e práticos – expõe a fragilidade do sistema.

Segundo o sociólogo Eduardo Biavati, especialista em educação e segurança no trânsito, o número de condutores sem habilitação e que fraudam os processos para adquirir o documento…