O UBER e a utopia liberal

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by 14 de outubro de 2015 0 comments
Vasconcellos: "Uber é a falsa sensação de liberdade de escolha"

Vasconcellos: “Uber é a falsa sensação de liberdade de escolha”

Por Eduardo Vasconcellos* – O novo sistema de aluguel de veículos com motorista para uso privado – o UBER – vem causando ‘frisson’ em todo o mundo e, especialmente, na cidade de São Paulo. O debate tem se concentrado nos temas da legalidade do serviço oferecido e da possível concorrência desleal em relação aos táxis, que são regulados pelo governo. Apesar de este ser um debate necessário meu interesse aqui é analisar quais podem ser os motivos do sucesso momentâneo deste novo serviço.

O sistema de táxi de São Paulo é o melhor do Brasil e está entre os melhores das grandes cidades do mundo, considerando as condições sociais e econômicas da sociedade brasileira. Ele também usa aplicativos que permitem que um usuário chame um táxi a qualquer momento. A única restrição grave que se pode fazer ao sistema atual – assim como a todos os sistemas no país – é que ele recebe grande quantidade de subsídios para apoiar o transporte dos grupos sociais mais ricos da sociedade. Na cidade de São Paulo, os subsídios diretos e indiretos podem ser estimados em R$ 250 milhões por ano, para transportar uma quantidade muito pequena de pessoas (1,5% da quantidade servida pelo transporte coletivo), cuja renda média é a mais alta dentre os usuários de todos os modos de transporte. A conseqüência é que os usuários de táxi recebem subsídios de 32% da tarifa nos seus deslocamentos. O táxi, na realidade, é um automóvel alugado com motorista, um substituto do automóvel particular, e que sempre contou com estes subsídios, seguindo a decisão das elites brasileiras desde a década de 1930, de apoiar incondicionalmente o transporte particular. Neste aspecto, o UBER tem a vantagem de não precisar de subsídio público.

Se o sistema regular atende bem de uma forma geral, porque ocorreu uma enorme mobilização em torno do tema do UBER? O debate sobre o UBER está ligado, no fundo, à utopia liberal da superioridade absoluta do “mercado” e da liberdade total de escolha e de usufruto do serviço adquirido por um consumidor.

No entanto, o novo serviço é ofertado em grandes cidades, nas quais a circulação livre é impossível, uma vez que o conflito é inevitável, considerando a grande quantidade de veículos e pessoas que precisam usar o mesmo espaço viário. Neste aspecto, o UBER vende uma ilusão, mas a qualidade do serviço e o poder que concede a quem o chama são suficientes para contentar o usuário em sua utopia. Chamar um veículo luxuoso para se transportar faz a pessoa se sentir bem, usufruindo do seu poder de consumidor que contrata um serviço de alto nível. Faz com que o usuário se sinta “moderno” no uso das tecnologias e que pareça estar em Nova Iorque ou em outra grande cidade mundial. Isto, de alguma forma, faz com que ele se…[MAIS]

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